A transição energética brasileira enfrenta um novo e polêmico capítulo. Em uma reunião extraordinária nesta sexta-feira (19.set.2025), a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) anunciou o início de cortes programados em usinas de geração distribuída que operam fora do controle do ONS (Operador Nacional do Sistema).
O objetivo é conter os riscos crescentes de instabilidade no sistema elétrico nacional, agravados pelo excesso de energia gerada em horários de baixa demanda. O alerta foi acionado após episódios críticos, como o do último Dia dos Pais (9 de agosto), quando a produção solar no horário do almoço chegou a níveis tão altos que quase provocou um apagão. Para evitar o colapso, o ONS foi forçado a desligar emergencialmente usinas hidrelétricas.
As primeiras a sentir os efeitos da nova estratégia serão as chamadas “usinas tipo 3” — empreendimentos de maior porte ligados diretamente às distribuidoras, como fazendas solares, usinas de biomassa, PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) e CGHs (Centrais Geradoras Hidrelétricas). Como estão fora do despacho centralizado do ONS, essas unidades se tornaram alvo prioritário de cortes controlados.
Mas o plano da Aneel vai além: a próxima fase mira diretamente a MMGD — a micro e minigeração distribuída, como os painéis solares instalados em casas, condomínios, comércios e pequenas empresas. Essa etapa, considerada a mais delicada e desafiadora, levanta preocupações no setor e acende o debate sobre os limites da intervenção regulatória em uma das maiores apostas da sociedade por energia limpa e descentralizada.
Durante a reunião, a agência também discutiu a criação de protocolos de comunicação e operação entre o ONS, as distribuidoras e os agentes geradores. A intenção é estabelecer regras claras para desligamentos programados, em vez de depender de ações emergenciais, como ocorreu nos últimos meses.
O crescimento acelerado da geração solar, especialmente no ambiente distribuído, tem colocado pressão sobre um sistema ainda pouco preparado para lidar com grandes volumes de energia intermitente em horários concentrados. A falta de infraestrutura de armazenamento, a ausência de sinais tarifários inteligentes e o atraso na modernização da rede agravam o cenário.
Embora a Aneel argumente que a medida é necessária para preservar a estabilidade do sistema, especialistas do setor alertam: sem planejamento estratégico, o Brasil corre o risco de conter justamente a energia limpa que deveria impulsionar sua transição energética.





