Baterias: a chave para resolver o excesso de energia renovável no Brasil

Baterias

Baterias: O Brasil enfrenta um dilema que parecia improvável há poucos anos: há energia limpa demais. Em 2024, eólica e solar responderam por 24% da eletricidade do país — ante 9,9% em 2019 — e a rede de transmissão nem sempre dá conta desse salto. O resultado: curtailment, quando parques são orientados a reduzir a geração — na prática, energia renovável desperdiçada — e episódios que quase levaram a um apagão (o Operador Nacional do Sistema alertou para risco no Dia dos Pais de 2025).

Por que as baterias entram na conversa A resposta técnica é simples e direta: grandes parques de armazenamento (BESS) capturam o excedente quando o vento sopra e o sol brilha demais, guardam essa energia e a liberam quando a rede precisa — assim como um power bank faz com um celular. Além de evitar desperdício, as baterias cobrem horários em que a geração solar cai (à noite), melhorando o aproveitamento da matriz renovável.

Números que impressionam

  • Mercado: segundo a Clean Energy Latin America, o setor de baterias no Brasil movimentou R$ 2,2 bilhões em 2025. É três vezes mais do que os R$ 700 milhões do ano anterior.
  • Capacidade instalada: 685 (megawatts/ MWh, conforme levantamento), suficiente para abastecer cerca de 1,7 milhão de residências.
  • Uso atual: ~70% dessa capacidade está fora da rede, em sistemas isolados para indústrias, comércios, agronegócio e comunidades.
  • Crescimento: em 2024 foram adicionados 269 MWh ao sistema nacional — alta de 29% sobre o ano anterior.

O que dizem especialistas

  • Ana Karina Souza (Machado Meyer): o maior valor das baterias é a flexibilidade operacional. “O operador pode determinar que não seja injetada mais energia quando já há oferta suficiente.” Em resumo: baterias funcionam como um seguro contra a intermitência das renováveis.
  • Markus Vlasits (Absae): o diferencial é a resposta quase instantânea — “ligar e desligar como um interruptor”. Isso torna as baterias ideais para enfrentar o “déficit de potência” (picos curtos, de duas a três horas) sem acionar térmicas por longos períodos. Além disso, baterias não têm custo variável de combustível, sendo eficientes para despachos curtos.

Economia no longo prazo Um estudo da Aurora Energy Research, encomendado pela Absae, estima que 1 GW fornecido por baterias pode sair até R$ 4,6 bilhões mais barato ao longo de 15 anos do que a mesma energia despachada por termelétricas a gás — um argumento forte a favor do armazenamento como alternativa econômica e operacional.

O que vem pela frente Com um leilão federal para contratar baterias a caminho, o tema finalmente ganha prioridade governamental. Resta avançar nas definições regulatórias — especialmente sobre remuneração e preços de venda da eletricidade — para destravar investimentos maiores e acelerar a integração das baterias ao sistema.

Conclusão As baterias não são apenas uma tecnologia complementar: podem ser a peça que evita desperdício de renováveis, reduz custos e dá flexibilidade operacional ao sistema elétrico brasileiro. Se regras e mercados evoluírem na mesma velocidade que a tecnologia, o país pode transformar um problema recém‑emergente em vantagem estratégica.

 

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