O Brasil vive um paradoxo energético. Mesmo sendo um dos países que mais produzem energia limpa no mundo, está desperdiçando um quinto de toda a geração solar e eólica disponível. Entre janeiro e outubro de 2025, 20,4% da energia renovável foi simplesmente cortada — um recorde histórico e três vezes maior que o registrado no mesmo período do ano anterior.
Os dados fazem parte de um levantamento da Volt Robotics, divulgado nesta quinta-feira (6), com base em informações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O estudo estima que o prejuízo financeiro causado pelos cortes, conhecidos como curtailment, já soma R$ 5,4 bilhões em 2025, e R$ 8,1 bilhões desde 2021 — quando o ONS começou a divulgar estatísticas sobre o tema.
Só em outubro, 37% da geração solar e 37,1% da eólica foram desperdiçadas, o equivalente a 5,9 mil GWh de energia não aproveitada — suficiente para abastecer Belo Horizonte por um mês inteiro. Os estados mais afetados foram Rio Grande do Norte (43,8%), Ceará (34,9%) e Minas Gerais (30,8%).
“No momento em que o Brasil é palco das discussões globais sobre clima, registramos o terceiro recorde seguido de desperdício de energia limpa. Fizemos a lição pela metade”, afirmou Donato Filho, diretor-geral da Volt Robotics. “É hora de transformar o excesso de energia renovável em diferencial competitivo.”
Segundo o relatório, metade das perdas ocorre por excesso de oferta, quando a produção supera o consumo. A outra metade vem de limitações na rede de transmissão e restrições operativas do sistema, impostas para evitar sobrecargas. Os cortes acontecem principalmente entre 9h e 16h, justamente nos horários de maior geração solar e menor demanda — e chegam ao pico aos domingos, quando o consumo é ainda mais baixo.
O estudo destaca que o avanço rápido da energia solar e eólica, impulsionado por incentivos e pela redução nos custos de instalação, não foi acompanhado pela expansão da infraestrutura elétrica. O resultado é um sistema congestionado, incapaz de escoar toda a energia limpa produzida.
🔥 Térmicas ligadas, renováveis paradas
A contradição atinge seu ápice quando, ao mesmo tempo em que se desperdiça energia de fontes renováveis de custo quase zero, usinas termelétricas — mais caras e poluentes — são acionadas sob bandeira vermelha patamar 2.
“Proíbem-se usinas renováveis de gerar energia de custo quase nulo, ao mesmo tempo em que se despacham térmicas. Falta flexibilidade e coordenação no sistema”, aponta o relatório.
O documento conclui com um alerta: o curtailment deixou de ser um problema técnico e passou a ser o maior obstáculo para o avanço das renováveis no Brasil.
Cada megawatt desperdiçado significa dinheiro público perdido, energia limpa jogada fora e confiança dos investidores abalada — em um momento em que o país tenta se posicionar como líder da transição energética mundial.





