Os cortes de energia renovável, conhecidos como curtailment, já provocaram um prejuízo de R$ 749 milhões aos setores eólico e solar do Ceará entre outubro de 2021 e abril de 2026. O número escancara o tamanho da crise enfrentada por um dos estados com maior vocação para geração limpa no país.
O problema acontece quando o sistema elétrico não consegue escoar toda a energia produzida por fontes renováveis, seja por falta de infraestrutura, seja por baixa demanda. Na prática, mesmo com vento e sol disponíveis, parte da produção precisa ser cortada para preservar o equilíbrio da rede.
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Cortes cresceram 22% em 2026
Segundo dados da Abeeólica, entre janeiro e abril de 2026, foram cortados 660 mil MWh de geração em usinas eólicas e solares fotovoltaicas no Ceará. O volume representa um aumento de 22% em relação ao mesmo período de 2025, quando o estado havia registrado 540 mil MWh de energia interrompida.
Além disso, levantamento da ePowerBay aponta que o Ceará já perdeu quase 3,3 milhões de MWh entre outubro de 2021 e setembro de 2025.
Setor viveu a pior crise da indústria eólica no Brasil
Para Elbia Gannoum, presidente da Abeeólica, o cenário representa a pior crise da indústria eólica no Brasil. Em entrevista ao Diário do Nordeste, ela afirmou, porém, que o mercado começa a dar sinais de recuperação após o auge da crise em 2024.
Segundo a executiva, os primeiros sinais do problema apareceram ainda em 2022, quando a queda da atividade econômica reduziu a demanda por energia. Esse movimento gerou o que ela chamou de “macro crise”, marcada por crise de contratos e, posteriormente, pela desaceleração na instalação de novos projetos.
O auge veio em 2024, quando o setor passou a conviver com demissões em massa e até a saída de fábricas do país.
Demissões atingiram em cheio a cadeia produtiva
Um dos casos mais simbólicos foi o da Aeris, empresa cearense e única fabricante brasileira de pás eólicas em operação. Em maio de 2024, a companhia demitiu cerca de 1.500 funcionários. Segundo o Sindmetal-CE, mais de 5 mil trabalhadores já foram desligados da empresa ao longo da crise.
Para Elbia, além da macro crise, o setor passou a enfrentar com mais força, a partir de 2023, uma “micro crise”, diretamente ligada ao avanço do curtailment.
Excesso de geração virou problema
Na avaliação da presidente da Abeeólica, o Brasil vive um paradoxo: a geração renovável cresce mais rapidamente do que o consumo, o que cria excedentes de produção que pressionam a capacidade de escoamento e a gestão do sistema pelo ONS.
Para manter a segurança da rede, o operador reduz a produção dos grandes geradores, afetando diretamente a rentabilidade dos empreendimentos.
Elbia reconhece que cortes de geração fazem parte da natureza do sistema, mas afirma que o patamar atual é insustentável. Segundo ela, quando os cortes chegam a algo em torno de 40%, o nível deixa de ser aceitável para qualquer sistema elétrico.
Setor aposta em retomada a partir de 2027
Apesar do quadro delicado, Elbia vê sinais de melhora. Entre os fatores que podem puxar uma retomada estão a crescente busca das empresas pela descarbonização de processos produtivos e a chegada de data centers, que demandam grandes volumes de energia.
Na projeção da executiva, a recuperação de investimentos e contratos deve ganhar força a partir de 2027, enquanto a redução mais relevante dos cortes de energia poderia começar em 2028.
Ela também afirma que novas oportunidades de emprego já começam a aparecer, especialmente com a movimentação de fabricantes chineses no Brasil. Segundo Elbia, a Goldwind já inaugurou sua primeira fábrica na Bahia, e outras empresas avaliam novas instalações no Nordeste.
Ressarcimento e baterias podem aliviar parte da crise
Outro fator visto como positivo é a Lei 15.269/2025, sancionada em novembro do ano passado. A norma moderniza o marco regulatório do setor elétrico, traz diretrizes para o armazenamento de energia e cria incentivos para sistemas de baterias.
De acordo com Elbia, a lei prevê o ressarcimento de até R$ 4 bilhões para os setores eólico e solar em todo o país no segundo semestre deste ano. Ainda assim, ela ressalta que o prejuízo nacional total já supera R$ 7 bilhões.
Também é aguardado ainda para este ano um leilão de baterias, tecnologia considerada estratégica para equilibrar o sistema e reduzir os impactos do curtailment. Até agora, porém, data e demanda contratada ainda não foram definidas.
Solução depende de várias frentes
Mesmo com avanços regulatórios, Elbia defende que a crise exige uma resposta ampla. Na visão dela, a solução passa por:
- expansão da transmissão;
- baterias no sistema;
- atração de novas cargas, como data centers;
- produção de hidrogênio;
- mecanismos de preços mais adequados;
- mudanças regulatórias.
O cenário do Ceará mostra que o problema deixou de ser pontual e virou um teste para o futuro da transição energética no Brasil: sem rede, armazenamento e regras compatíveis com a nova realidade, o país corre o risco de desperdiçar energia limpa, perder empregos e afastar investimentos.





