A promessa de gerar energia solar à noite parece contradição, mas é exatamente essa a aposta da Reflect Orbital, startup californiana que acaba de receber sinal verde da Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos Estados Unidos para testar um satélite capaz de refletir a luz do Sol de volta à Terra depois do anoitecer. A decisão animou investidores — e acendeu um alerta entre cientistas.
O plano funciona como uma espécie de “entrega de luz solar sob demanda”. O satélite de testes, batizado de Eärendil-1, deve ser lançado ainda este ano a 640 quilômetros de altitude. Uma vez em órbita, ele abriria um espelho de quase 18 metros de diâmetro para iluminar uma área circular de cerca de cinco quilômetros na superfície. A ideia é atender usinas solares fora do horário de sol, apoiar equipes de resgate e até iluminar cidades.
Caso o teste seja bem-sucedido, a empresa projeta colocar 1.000 satélites maiores em operação até o fim de 2028 e outros 5.000 até 2030 — alguns com espelhos de quase 55 metros, capazes de refletir o equivalente à luz de 100 luas cheias. O modelo comercial prevê cobrança de cerca de US$ 5 mil por hora de luz de um único espelho, em contratos anuais, além da divisão de receita com usinas que ampliem sua produção nas horas extras de iluminação.
A proposta atraiu peso pesado do venture capital: a Sequoia Capital aportou US$ 6,5 milhões na rodada seed de 2024 — seu primeiro movimento no setor espacial desde a SpaceX — e voltou a participar da Série A de US$ 20 milhões, liderada pela Lux Capital em 2025.
O entusiasmo dos investidores, porém, esbarra na resistência da comunidade científica. Astrônomos e especialistas em vida selvagem alertam que a luz refletida pode atrapalhar observações astronômicas, confundir pilotos e desregular os ritmos circadianos de pessoas, animais e plantas. Em carta enviada à FCC, a Sociedade Astronômica Americana argumentou que o projeto não atende ao interesse público e traz riscos difíceis de mensurar.
O Observatório Europeu do Sul (ESO) reforçou o coro. Um estudo publicado na revista Astronomy & Astrophysics concluiu que, mesmo sem apontar diretamente para observadores, os satélites apareceriam no céu como “milhares de Vênus”. “O céu deixaria de ser puro e pareceria com o que se observa nos arredores de uma cidade”, resumiu o astrônomo Olivier Hainaut, autor do trabalho.
Vale lembrar que o setor renovável já vem endereçando o problema da intermitência por outro caminho — o das baterias de armazenamento (BESS) em larga escala —, o que torna a solução espacial ainda mais controversa do ponto de vista de custo e necessidade.
Mesmo diante das advertências, a FCC classificou a iniciativa como uma “tecnologia potencialmente revolucionária” e liberou o teste, sustentando que os danos apontados são improváveis. A aprovação reforça a postura do órgão, hoje sob gestão favorável à indústria espacial, de que atividades no espaço não estariam sujeitas às avaliações ambientais aplicadas em solo.





