O avanço acelerado da energia solar no Brasil passou a gerar um novo desafio para o setor elétrico: a superoferta de eletricidade em determinados horários do dia já está sobrecarregando o sistema e obrigando o desligamento diário de usinas para evitar apagões.
A geração solar instalada em telhados de residências, comércios, propriedades rurais e indústrias já alcançou 44 mil megawatts, consolidando a chamada geração distribuída como a segunda maior fonte de capacidade instalada do país, atrás apenas das hidrelétricas.
O problema é que essa produção se concentra, principalmente, entre 10h e 16h, período em que a oferta de energia solar frequentemente ultrapassa a demanda. Com mais energia entrando no sistema do que o consumo consegue absorver, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem sido obrigado a intervir para manter a estabilidade da rede.
Na prática, isso significa pedir diariamente que usinas solares e eólicas reduzam ou interrompam a geração. Em 2023, esse movimento já teve impacto expressivo: segundo o texto, os empreendimentos renováveis deixaram de produzir mais de 20% da energia que poderiam gerar, tanto por determinação do ONS quanto pela falta de infraestrutura para escoamento.
Diante dessas perdas, empresas do setor passaram a cobrar compensação do governo, tema que motivou o Ministério de Minas e Energia a abrir, no fim do ano passado, uma consulta pública para discutir soluções.
Para o presidente da Associação Brasileira de Energia Solar, Rodrigo Sauaia, o principal gargalo está na estrutura da rede elétrica. Segundo ele, o país precisa reforçar linhas de transmissão, redes de distribuição e subestações para conseguir aproveitar melhor a energia limpa que hoje acaba sendo desperdiçada.
Sauaia também defende o estímulo ao aumento do consumo de eletricidade no país como parte da solução, com medidas como a expansão dos veículos elétricos, a eletrificação de indústrias e até a exportação de energia para países vizinhos.
O Ministério de Minas e Energia informou que, desde 2023, foram investidos cerca de R$ 70 bilhões em novas linhas de transmissão e em melhorias no sistema, e afirmou que seguirá atuando para reduzir os cortes na geração renovável.
Já o presidente da Associação de Grandes Consumidores de Energia, Paulo Pedrosa, faz um alerta sobre o modelo atual. Na avaliação dele, as regras do setor incentivaram uma expansão muito rápida dos painéis solares distribuídos, que não são controlados diretamente pelo sistema. Com isso, em momentos de forte incidência solar, a grande quantidade de energia injetada na rede pode ampliar o risco de instabilidade.
O cenário mostra que, embora a energia solar siga avançando como símbolo de uma matriz mais limpa, o crescimento sem o mesmo ritmo de expansão da infraestrutura pode transformar um ativo estratégico em um problema operacional para o setor elétrico brasileiro.





