Megausina solar no Marrocos impressiona, mas esbarra em custos e desafios

Marrocos

No limite do Saara, onde o calor extremo faz parte da rotina, o Marrocos tenta transformar sol em protagonismo energético. Perto da cidade de Ouarzazate, conhecida como a “porta do deserto”, a gigantesca usina Noor se tornou símbolo da ambição do país de liderar a transição para as energias renováveis no Norte da África. Mas, por trás da grandiosidade do projeto, cresce também uma pergunta incômoda: por que a energia limpa ainda não barateou a vida de quem mora ao lado dela?

Com quase 500 hectares, a usina produz energia suficiente para abastecer mais de 1 milhão de casas e está entre os maiores projetos solares do planeta. Diferentemente dos parques fotovoltaicos convencionais, a Noor utiliza a tecnologia de energia solar concentrada. São cerca de 2 milhões de espelhos refletindo os raios solares para um receptor no topo de uma torre de 247 metros de altura. O calor gerado aquece sal fundido a 600°C, que produz vapor para mover turbinas e gerar eletricidade mesmo após o pôr do sol.

Energia limpa cresce, mas combustíveis fósseis ainda dominam

Apesar do avanço das renováveis, o Marrocos ainda depende fortemente de combustíveis fósseis, especialmente do carvão, para abastecer sua rede elétrica. Segundo a analista Intissar Fakir, do Instituto do Oriente Médio, a eletricidade gerada por fontes fósseis responde sozinha por cerca de 48% das emissões de gases de efeito estufa ligadas à energia no país.

Na prática, isso ajuda a explicar por que a eletricidade continua cara para a população. Em média, os marroquinos gastam cerca de US$ 110 por mês com energia, em uma renda média de aproximadamente US$ 550. Em um país quente e seco, onde ventiladores e ar-condicionado são frequentemente indispensáveis, esse custo pesa no orçamento doméstico.

Parte desse problema está ligada à dependência externa: o Marrocos não produz combustíveis fósseis em volume relevante e importa cerca de 90% do carvão, petróleo e gás que consome. Isso expõe o país às oscilações do mercado internacional e torna ainda mais urgente a busca por uma matriz energética menos vulnerável.

Plano ambicioso esbarra em limitações da rede

Mesmo com esses entraves, o Marrocos tem metas agressivas. O país quer alcançar 52% de eletricidade de fontes renováveis até 2030 e 70% até 2050. Com forte radiação solar e bons ventos costeiros, o potencial é inegável.

A Noor, porém, é apenas uma peça desse quebra-cabeça. O país já construiu cerca de duas dezenas de megaprojetos solares, eólicos e hidrelétricos, além de manter outros em fase de planejamento. Também assumiu o compromisso de eliminar totalmente a geração a carvão até 2040.

O problema é que gerar energia renovável não significa, automaticamente, conseguir usá-la plenamente. Embora o Marrocos já tenha tecnologia instalada suficiente para produzir 46% de sua eletricidade a partir de renováveis, em 2023 o país conseguiu aproveitar pouco mais da metade disso.

Segundo Fakir, o principal gargalo está na rede elétrica, que ainda não tem capacidade suficiente para integrar toda essa produção ao consumo diário. Isso inclui não apenas linhas e infraestrutura, mas também investimentos em armazenamento de energia.

Além disso, se quiser cumprir o objetivo de exportar eletricidade limpa para a Europa, o país terá de ampliar ainda mais seus investimentos em transmissão e integração energética.

Megaprojetos geram críticas locais

Apesar do peso simbólico da Noor, pesquisadores e organizações da sociedade civil questionam se o foco em megaprojetos é, de fato, o melhor caminho para a transição energética do Marrocos.

Uma das críticas é que a energia solar concentrada consome muita água, recurso escasso em uma região desértica. Os milhões de espelhos precisam ser limpos constantemente para retirar areia e poeira, processo que consome água suficiente para encher cerca de 1.200 piscinas olímpicas.

Outro ponto sensível envolve o impacto sobre comunidades locais. Parte das terras usadas pelo projeto era área de pastagem e foi apropriada com pouca consulta aos agricultores da região. Isso alimentou divisões entre os moradores, muitos dos quais afirmam não ter sentido benefícios concretos da megainstalação.

Um morador de 83 anos relatou que a eletricidade continua cara e afirmou ainda que os espelhos e a luz concentrada teriam aumentado a sensação de calor nas aldeias próximas.

Noor é vitrine, mas não resolve tudo

Para Fakir, Noor tem um papel importante como demonstração de capacidade técnica e ambição energética. Ao mesmo tempo, o projeto também expõe os limites de uma transição baseada apenas em grandes empreendimentos.

Na avaliação de especialistas, o país talvez precise equilibrar melhor seus investimentos entre grandes usinas e soluções mais descentralizadas, como painéis solares em telhados de casas, empresas e fazendas, que poderiam levar benefícios mais diretos às comunidades.

No fim, Noor mostra duas faces da transição energética: a do espetáculo tecnológico que coloca o Marrocos no mapa global da energia limpa e a da realidade local, onde infraestrutura, custo, água e inclusão social ainda pesam tanto quanto o sol abundante do deserto.

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