Menor cidade do Brasil vira referência e fica até 48h sem apagões com energia solar

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O menor município do Brasil acaba de conquistar um feito inédito no setor elétrico. Serra da Saudade (MG), com pouco mais de 800 habitantes, passou a operar uma microrrede de energia com geração solar e baterias, capaz de manter o fornecimento por até 48 horas mesmo em caso de falhas na rede principal. A iniciativa coloca a cidade no centro das discussões sobre resiliência energética e adaptação às mudanças climáticas.

O projeto, implantado pela Cemig, recebeu investimento de R$ 7 milhões e combina energia solar fotovoltaica, armazenamento em baterias, automação da rede e medição inteligente. A chamada microrrede de dupla alimentação permite que o município funcione de forma independente sempre que houver interrupções causadas por tempestades, ventos fortes ou problemas estruturais na rede convencional.

O coração do sistema é um banco de baterias de 2,0 MWh, abastecido por um gerador solar dedicado exclusivamente à recarga. Diferente das usinas tradicionais, a energia não é injetada diretamente na rede, mas armazenada para garantir estabilidade, controle e resposta imediata. Em caso de apagão, a transição é automática, mantendo o atendimento integral à população por até dois dias.

Segundo Marney Antunes, vice-presidente de distribuição da Cemig, a solução surgiu após dificuldades práticas enfrentadas pela companhia. “Tínhamos problemas com empreiteiros e escassez de mão de obra para redes convencionais. Precisávamos de outra alternativa”, afirmou. A busca por soluções levou a empresa a referências internacionais, com visitas técnicas ao Canadá e à China, onde tecnologias de baterias já estavam mais avançadas.

Com a redução dos custos, a combinação entre baterias e energia solar mostrou-se competitiva frente às soluções tradicionais. “Pedimos à engenharia que desenvolvesse uma rede mais barata, mais rápida e eficiente”, explicou Antunes.

Além de evitar apagões, a microrrede melhora a qualidade da energia, reduzindo oscilações de tensão e distúrbios elétricos — problemas comuns em municípios atendidos por redes longas e com pouca redundância.

Por que Serra da Saudade?

A escolha do município foi baseada em estudos técnicos e econômicos. Alternativas convencionais, como novos alimentadores ou reforços na rede existente, poderiam custar mais de R$ 30 milhões e demandar prazos elevados. A microrrede apresentou menor custo, implantação mais rápida e maior eficiência operacional.

Conhecida pela tranquilidade — a cidade não registra homicídios há mais de 60 anos — Serra da Saudade convivia com dificuldades quando faltava energia. “Quando caía a luz, ficávamos sem internet e sem comunicação, esperando o restabelecimento”, relatou a prefeita Neusa Ribeiro (PP).

Agora, o município conta com dupla alimentação: a rede principal e a microrrede autônoma, que pode operar de forma isolada sempre que necessário, reduzindo drasticamente o risco de interrupções prolongadas.

Rede inteligente e monitoramento em tempo real

O projeto inclui ainda a implantação de uma rede elétrica inteligente, com medidores eletrônicos em residências e comércios, além da modernização da iluminação pública. Toda a infraestrutura é monitorada em tempo real pelo centro de operações da Cemig, em Belo Horizonte, que acompanha indicadores como duração das interrupções, qualidade da energia e eficiência do sistema.

As informações servirão de base para avaliar a replicação do modelo em outros municípios mineiros, especialmente aqueles com topografia complexa ou maior vulnerabilidade elétrica.

Energia solar e baterias ganham protagonismo

A iniciativa ocorre em um cenário de aumento dos eventos climáticos extremos, que têm provocado danos recorrentes à infraestrutura elétrica no país. Para o presidente da Cemig, Reynaldo Passanezi Filho, a digitalização e a descentralização são pilares da estratégia da companhia. “Mais tecnologia, mais manutenção preventiva e mais capacidade de resposta aumentam a resiliência do sistema”, afirmou.

Com base no projeto-piloto, a Cemig estuda levar a microrrede para ao menos dez outros municípios. Em Serra da Saudade, a experiência já aponta um caminho claro: energia solar combinada com baterias tende a se consolidar como solução estratégica para garantir segurança energética, qualidade no fornecimento e adaptação às novas condições climáticas.

“O futuro da distribuição passa por isso”, resume Marney Antunes. “Assim como aconteceu com os painéis solares, as baterias estão ficando mais acessíveis — e nós estamos sendo pioneiros ao aplicar essa tecnologia para levar mais energia, com mais qualidade, aos municípios.”

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