A falta de combustível e cortes de luz de até 12 horas por dia estão forçando cubanos a improvisar: enquanto fogões de carvão reaparecem nas ruas de Havana, painéis solares e motos elétricas se multiplicam como alternativas essenciais à crise energética.
Carvão volta às calçadas
Nas periferias sudeste da capital, sacos de carvão são vendidos diretamente sobre o asfalto. Fogareiros artesanais — alguns feitos com tambores de máquina de lavar — dividem espaço com pilhas de sacos pretos. “Todo mundo sabe o que vem agora. Não temos combustível no país, é preciso buscar alternativas”, disse à AFP Niurbis Lamothe, funcionária pública de 53 anos, após comprar um fogão a carvão. O comerciante Yurisnel Agosto, 36, relata que antes vendia mais para pizzarias e restaurantes; agora famílias compram três sacos de cada vez “para se preparar para quando não houver eletricidade”.
Apagões que mudam hábitos
Regiões inteiras enfrentam cortes que chegam a 10–12 horas diárias, tornando urgente qualquer solução para cozinhar, iluminar e manter equipamentos essenciais. A escassez de petróleo — agravada pelo bloqueio dos Estados Unidos e por ameaças de punições a países que abasteçam a ilha — acelera a busca por alternativas domésticas e comunitárias.
O boom dos painéis solares
Desde 2024, empresas de instalação fotovoltaica proliferaram em Cuba. O governo facilitou importações para acelerar a adoção. “As pessoas estão desesperadas para resolver”, disse à AFP Reinier Hernández, 42, dono de uma empresa de instalação. A demanda explodiu: equipes de instalação mal conseguem descansar, conta Orley Estrada, 30, chefe de equipe — “nas últimas duas semanas, não descansei”, disse, ao narrar semanas de telefonemas e visitas sem fim.
Igreja e solidariedade: energia para alimentar pessoas
No bairro de Guanabacoa, um lar de idosos administrado pela Igreja Católica recebeu 12 painéis no telhado para garantir a preparação de refeições para cerca de 80 pessoas. A iniciativa só foi possível com cerca de US7mil(quaseR 37 mil) arrecadados em doações. “Sem eletricidade, não tínhamos outra opção”, disse a irmã Gertrudis Abreu.
Motos elétricas e improviso urbano
Além da adoção de painéis, muitos cubanos recorrem a motos elétricas para se deslocar sem gasolina. O improviso também se espalha em pequenos negócios e lares: geradores, baterias, fogões a carvão e adaptações caseiras viram ferramentas de sobrevivência frente ao colapso do fornecimento.
Impacto econômico e geopolítico
A economia cubana encolheu cerca de 5% em 2025, segundo o Centro de Estudos da Economia Cubana. A crise atual combina escassez global de petróleo, a redução de suprimentos que vinha da Venezuela — agravada após a queda de Nicolás Maduro — e o embate com o bloqueio norte-americano, que limita rotas de abastecimento e assusta potenciais fornecedores.
Entre urgência e oportunidade
O desespero empurra famílias, igrejas e pequenas empresas a adotarem soluções resilientes — o carvão como paliativo, o painel solar como esperança de autonomia. Resta saber se a expansão acelerada da energia limpa conseguirá mitigar os apagões de forma duradoura ou se o país seguirá alternando entre improviso e racionamento. Sem petróleo suficiente, Cuba tenta se manter de pé com carvão, criatividade e, cada vez mais, luz do próprio telhado.





