O crescimento acelerado das fontes renováveis, como a solar e a eólica, trouxe uma revolução na matriz energética brasileira. Mas, por trás das boas notícias, há um alerta importante: o modelo atual pode se tornar insustentável se mudanças regulatórias não forem debatidas com urgência.
É o que aponta Francisco Silva, diretor técnico regulatório da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica). Em entrevista, ele explica os gargalos do sistema e os riscos que subsídios mal calibrados podem trazer para a estabilidade do setor.
“O grande desafio é que a energia solar e eólica são intermitentes”, explica Silva. “O vento não sopra o tempo todo, e o sol só gera energia com força entre 8h e 15h45.”
Esse comportamento gera um efeito colateral: justamente nos horários em que a geração é alta, o preço da energia despenca, por excesso de oferta. O problema? O sistema não foi desenhado para equilibrar essa variação, e isso pode comprometer a viabilidade a longo prazo.
Outro ponto crítico são os subsídios. Segundo Francisco Silva, os incentivos dados à geração própria — principalmente a solar — não estão sendo distribuídos de forma justa nem estratégica.
“Hoje, os subsídios beneficiam quem pode instalar painéis solares. Mas os créditos de energia gerados — muitas vezes em horários de baixa demanda — são utilizados em momentos em que a energia está mais cara. Isso desequilibra todo o sistema.”
Na prática, o modelo incentiva o consumo nos horários mais críticos sem oferecer soluções estruturais, como o armazenamento de energia ou o uso consciente.
Os números impressionam. Até setembro de 2025, os subsídios concedidos para a geração solar residencial somaram R$ 12 bilhões. E isso não se limita a residências.
“Grandes empresas, como data centers, também utilizam esses subsídios para reduzir custos de energia. Mas quem paga a conta são os consumidores que não têm geração própria”, alerta o diretor da Abeeólica.
O modelo atual, segundo especialistas, acaba transferindo o custo da energia para quem menos tem acesso aos benefícios da geração distribuída, ampliando desigualdades.
Francisco Silva defende que o setor precisa urgentemente discutir novos modelos regulatórios que incentivem o uso racional da energia renovável, especialmente considerando as particularidades da geração intermitente.
“É preciso modernizar o sistema, sim. Mas sem travar a expansão das fontes limpas. O equilíbrio é possível, desde que haja diálogo e planejamento.”
Se o Brasil quiser manter o ritmo de crescimento da energia limpa sem comprometer a sustentabilidade do sistema, será fundamental repensar regras, rever subsídios e apostar em soluções como armazenamento, tarifação inteligente e inclusão energética.





